quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O que há de bom e o que há de péssimo com a reforma educacional do governo


O que há de bom e o que há de péssimo com a reforma educacional do governo



Eis os problemas fundamentais com a reforma educacional do ensino médio proposta pelo governo de Michel Temer:

a) O governo federal quer decidir centralizadamente um assunto que deveria ser definido em nível estadual ou, melhor ainda, municipal. Político e burocrata em Brasília não têm condições de reunir e processar todas as informações dispersas e necessárias para definir adequadamente a base curricular de acordo com as especificidades e necessidades regionais.
b) Essa tara centralizadora que deposita todas as esperanças de solução no governo federal é um de nossos principais vícios. Como se o governo federal tivesse a capacidade de realizar todas as expectativas de maneira eficiente, o que é um contra-senso se considerarmos todo o debate envolvendo os fracassos do governo federal
c) A esmagadora maioria das escolas públicas são municipais e estaduais. Dado que os estados e municípios estão na bancarrota, e dado que a reforma exigirá mais investimentos, trata-se de uma conta que não fecha.  É certo que o governo federal — por meio de nossos impostos — terá de sair distribuindo dinheiro para garantir essa mudança.
d) Como não vivemos em um federalismo, mas sim em uma República centralizadora, como é que municípios e estados terão dinheiro para investir o necessário no ensino se a nossa estrutura tributária drena quase todos os recursos provenientes de tributos para a União?
e) Eis a pior parte: a exigência de que o aluno permaneça, agora, ao menos sete horas por dia na escola.  Isso é uma grande vitória do estado e das suas instituições, e uma total derrota da família e do direito que ela tem de se manter perto do seu filho — para não dizer de educá-lo — durante a maior parte do dia.
f) Escola obrigatória sete horas por dia é sequestro. É a garantia de que o seu filho ficará um terço da vida dele, até os quase vinte anos de idade, sendo educado por burocratas e sindicalistas — e aprendendo sabe-se lá o quê.
g) Seu filho passar sete horas por dia sob o comando do politicamente correto é algo que deveria lhe preocupar. 
Sim, a possibilidade de o aluno agora ter o direito de escolher quais matérias ele quer fazer e quais não quer fazer representa um avanço.  Isso é digno de aplausos e merece elogios.
Mas de nada adianta essa maior liberdade se, em troca, nossos filhos serão obrigados a ficar 7 horas por dia sob o controle de professores engajados, de politiqueiros e de agitadores sindicais.
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Comentários de Ícaro de Carvalho:
O sistema educacional que temos hoje ainda é um eco daquela estrutura burocrática copiada do auge do império inglês. Seus criadores não estavam preocupados com a educação. 
O objetivo daquele amontoado de matérias e das centenas de conhecimentos técnicos específicos era a criação de um sujeito manso, obediente e com uma quantidade mínima de habilidades, universais e uniformes.  O indivíduo era treinado para que fosse capaz de exercer funções administrativas em qualquer colônia do império.
Com o tempo, o ensinamento burocrático foi inflado, por meio de grandes ministérios e secretarias, chegando hoje ao limite do escandaloso.  Ensinamos às crianças prismas e logaritmos numa ponta do funil e aguardamos, pacientemente, para que saiam, do outro lado, aos 17 anos, a incrível proporção de 7 analfabetos funcionais a cada 10.
Acreditar que a solução para a educação é mais dessa mesma educação é o equivalente a beber água do mar. Seria muito mais honesto se vários pais admitissem que o que querem são apenas lugares para deixarem os filhos por mais tempo enquanto trabalham. 
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Comentário de João Luiz Mauad
Lá nos idos de 1970, tive o privilégio de estudar em uma das melhores, senão a melhor escola privada do Rio, e, pasmem!, nunca tive aulas de arte, sociologia ou filosofia, nem no ensino fundamental, nem no médio. Em compensação, todos os meus colegas saíam da escola sabendo ler perfeitamente e com conhecimentos básicos de matemática e ciências, aptos inclusive a entender a lógica por trás de qualquer texto, por mais complexo e elaborado, inclusive dos grandes autores clássicos e dos filósofos mais difíceis.
Não adianta você mandar alguém que não consegue entender nem um romance de banca de jornal ler textos de Hegel, Nietzsche, Hume ou Aristóteles. É total perda de tempo. Aliás, o tempo (assim como a atenção) dos estudantes é um "insumo" escasso e, portanto, deveríamos tentar aproveitá-lo para ensinar muito bem o básico, a fim de que adquiram o ferramental mínimo para voos mais altos, inclusive nas áreas de filosofia e sociologia, economia, direito etc.
É claro que reformar algo tão complexo não é tarefa fácil, nem jamais será um trabalho perfeito, mas pelo que pude entender, a proposta do governo de abolir algumas disciplinas obrigatórias está no caminho certo e espero que não voltem atrás.
Finalmente, porém não menos importante, enquanto não conseguirmos tirar a ideologia das salas de aula, não iremos muito longe…
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Comentários de Bruno Garschagen:
Estudei parte da minha vida em escola pública municipal. A maioria dos alunos estava lá para comer merenda — e não poderia ser diferente, considerando que não tinham o que comer em casa.
Lembro que um colega de turma desmaiou de fome no início de uma aula de educação física que era realizada numa quadra poliesportiva que parecia uma cidade da Síria recém-bombardeada. Aula de educação física? O professor jogava uma bola de futebol velha para cima e sempre tinha um colega a gritar a palavra de ordem: "bola presa é pau". E começava a carnificina.
Tirando alguns heróis que davam expediente como professores, donos de uma capacidade extraordinária de ensinar a matéria e de nos empolgar, o nível geral era, na falta de uma palavra melhor, sofrível. Terra devastada, como no famoso poema de T. S. Eliot.
Por isso, qualquer reforma de ensino na atual situação do Brasil estará fadada ao fracasso se não se concentrar em pontos fundamentais como:
- Escolas com infraestrutura e limpas;
- Diretor(a) que saiba administrar a escola;
- Professores que dominem o conteúdo e saibam transmiti-los de forma a seduzir os alunos para o conhecimento;
No mais, como pode dar certo uma escola semidestruída, toda pichada, com vazamentos por toda parte, com professores mal qualificados, com jovens mal educados e violentos atrapalhando aqueles que querem estudar e agredindo professores, e com os pais dos alunos mal educados e violentos que vão à escola agredir e ameaçar diretores e professores?
Acreditar que "basta vontade política" é um autoengano. Não falta só vontade política. Falta dinheiro, falta formação gerencial e faltam ideias adequadas e uma compreensão completamente distinta sobre o papel do estado e da responsabilidade dos indivíduos, a começar pela família.
O problema fundamental da reforma, portanto, não foi apenas ter sido implementada por medida provisória e sem um debate prévio como se tem dito por aí — debate este que serviria para ratificar propostas ruins e sempre com a perniciosa ideia da "universalização" do "currículo nacional comum" e de todas as variações da pedagogia do oprimido que orientam o ensino formal no Brasil.
Sobre o conteúdo, não é preciso inventar a roda: voltemos aos clássicos, e atualizemos a maneira de apresentá-los aos alunos de hoje.
Tudo o que fuja disso é tergiversação ou discussão irrelevante sobre uniforme para menino que não se sente menino e menina que não se sente menina — seguindo um programa ideológico convertido em lei. Neste caso, a minha proposta é simples: uniforme eunuco para omitir o gênero.
De resto, parem de chamar ensino de educação. Quem educa é a família. A função da escola é ensinar. Vejam o vídeo abaixo do professor José Monir Nasser. Ponto.



FONTE: Mises Brasil


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