terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sobre o desarmamento das FARC

Se as FARC acreditam que os colombianos vão aceitar esse retrocesso e que elas vão chegar ao poder fingindo ser um partido como os demais, se enganam.




ESCRITO POR EDUARDO MACKENZIE | 11 AGOSTO 2016 

O desarmamento das FARC (no caso em que haja desarmamento real e completo, coisa que muito poucos acreditam factível) deve consistir não só na entrega física e visível e ante os olhos do país (não atrás de opacos biombos estrangeiros de duvidosa condição) dos fuzis, pistolas, granadas, morteiros, minas, explosivos, laboratórios de droga, veículos e aviões, e demais instrumentos de guerra em poder dessa organização. O desarmamento deve ser unilateral (nada de desmantelar simultaneamente o Estado e a Força Pública).

Esse desarmamento deve ser, também - e sobretudo -, intelectual e político. As FARC devem renunciar ao seu programa de conquista do poder mediante a violência e renunciar à doutrina da “combinação de todas as formas de luta”, quer dizer, à estratégia de cometer os crimes mais atrozes e massivos, ao mesmo tempo em que praticam o engano político e outras artes, aparentemente “pacíficas”, como a infiltração, a calúnia sistemática, a desinformação, a manipulação das greves e outras formas de protesto social e, sobretudo, a obediência às ditaduras estrangeiras que durante seis décadas as ajudaram a afundar todos os meios econômicos, políticos, institucionais e morais da Colômbia.

As FARC deverão, em conseqüência, renunciar ao seu nome. Um partido que queira participar da vida civilizada do país, sobretudo na esfera política e midiática, não pode se chamar “força armada”, nem pretender ser um “exército do povo”. Um partido que necessita que lhe dêem 2.334 assentos no Senado, Câmara de Representantes, Assembléias estaduais e Câmaras municipais, pois sabe-se odiado pela população, não pode estar armado, nem semi-armado, nem dizer que “deixou” as armas quando elas estão na curva da esquina.

Em seus sessenta anos de atividades criminais, as FARC procuraram algo mais que conquistar o poder: pretenderam suprimir, em escala local e nacional, as potencialidades não-comunistas do país, de sua vida política, econômica, social, cultural e intelectual. Não alcançaram essa vasta meta porém conseguiram infiltrar e colonizar certas parcelas do aparato estatal e da sociedade. Utilizam sua influência na justiça para fazer liqüidação social, sobretudo de militares e adversários políticos, mediante acusações e sentenças aberrantes. Sua influência na educação nacional é devastadora: os valores democráticos são sufocados, a filosofia é contaminada, a ciência política é desviada, a história é manipulada, o direito é envilecido, o jornalismo é politizado. A ideologia da luta de classes, da dignidade humana vista como algo subordinável aos imperativos do poder, a tese da violência como algo “aceito pelo político”, como diz, sem se ruborizar, Medófilo Medina, coroa, de maneira fantasmagórica, quase subliminar, essas carreiras profissionais. Quase ninguém sai isento de tais reflexos dos centros educacionais.

Para que alcançassem essa meta, sobretudo a de destruir o capitalismo e a democracia “burguesa”, as FARC foram dotadas dos meios indispensáveis para isso: as armas, a intriga e uma ideologia que lhes dizia que tinham direito de vida ou morte sobre os colombianos. O potencial de violência assim alcançado lhes permitiu intervir em política e na sociedade, no mundo sindical, durante seis ou sete décadas. Tudo isso deve acabar.

Se as FARC querem se transformar em partido político legal devem abandonar tais ambições e tal ideologia. O problema é que não há um só índice de tais renúncias nos textos dos acordos “de paz” que estão elaborando em Havana com o governo de Santos. Por isso o ceticismo popular se amplia e acelera ante a iminência do plebiscito sobre esses “acordos”.

Nesses textos, as FARC estão, pelo contrário, edificando uma nova institucionalidade que elas vêem como um trampolim que facilitaria a conquista de suas ambições estratégicas. Esse é o espírito do documento que as pessoas de Timochenko entregaram ao governo de Santos e que a Radio Caracol resumiu neste 3 de agosto. Lá eles exigem a criação de novas instituições, de novos direitos e de novos organismos que beneficiarão “automaticamente” os que “deixarem as armas”. Exigem direitos que os colombianos não têm, como a “designação gratuita de residências, de prédios e de alimentos”, de serviço de saúde e de educação, de pensões de aposentadoria sem jamais haver contribuído, e até a “isenção de impostos durante 30 anos”. Tudo isso, fora a impunidade total para seus crimes e a não-reparação de suas vítimas, sem que tenham sequer renunciado às suas ambições de demolir o capitalismo e a democracia. Sem que tenham renunciado às suas pulsões de extrema violência, nem sequer à sua linguagem habitual: destruir, liqüidar, arrasar, erradicar o “inimigo de classe”.

Enquanto os colombianos devem trabalhar duro para ganhar a vida e pagam impostos quase toda a sua vida para financiar os serviços públicos, o que é normal em todo país livre, os membros das FARC aspiram a ter uma vida confortável, de ócio, paga por sua vítima, a sociedade. Aspiram a viver em um mundo à parte, fechado sobre eles mesmos e dependente do assistencialismo mais lamentável e não merecido: em recompensa por suas seis décadas de barbárie anti-colombiana. Tudo isso é absurdo.

O desarmamento das FARC é, pois, uma tarefa complicada e amplíssima, ante a qual há um déficit de análise. Essa tarefa tem um caráter duplo: militar e político. Não é a entrega de algumas metralhadoras. Isso é mais um ato de renúncia sincero a uma certa política, a alguns métodos. Quando o comunismo foi derrubado na Rússia e Leste Europeu, o regresso destas sociedades a uma fase de prosperidade e liberdades só pôde se dar graças à bancarrota da ideologia comunista, a que esta fosse tirada da esfera política. Os comunistas evoluíram. Uns para a social-democracia, outros para a ecologia e outros para o nacionalismo (Putin). Na Colômbia, o processo de paz com as FARC quer fazer o contrário: que o país retroceda, se acomode à visão enfermiça e bestial da minoria comunista e não que esta descubra a democracia. Aspiram a essa involução vergonhosa, pois têm o apoio ruim de um presidente da República e das ditaduras bolivarianas.

Mesmo assim, não ganharão. Se as FARC acreditam que os colombianos vão aceitar esse retrocesso e que elas vão chegar ao poder fingindo ser um partido como os demais, se enganam. Se encontrarão ante um muro muito firme: os 197 anos de vida democrática da Colômbia, aos quais as maiorias não querem renunciar.



Tradução:
 Graça Salgueiro





Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...