quarta-feira, 27 de julho de 2016

"O ensino médio vai mudar" (27/07/2016, Páginas Amarelas da VEJA)


Entrevista com Mendonça Filho, Ministro da Educação, sob o título  "O Ensino Médio vai mudar", reportagem de Monica Weinberg, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 27 de julho de 2016.


DE UMA FAMÍLIA de políticos de Pernambuco, José Mendonça Bezerra Filho, 50 anos, já foi deputado estadual, secretário, governador e, agora, é deputado federal licenciado pelo DEM. No Congresso, ajudou a alinhavar acordos pró-impeachment de Dilma Rousseff. Acabou alçado pelo presidente interino Michel Temer ao comando do Ministério da Educação (MEC), área que o próprio Mendoncinha, como é chamado, diz não dominar. Para assessorá-lo, ele montou uma equipe de profissionais respeitados e a encarregou de sacudir a estrutura e as políticas do ministério que tem o terceiro maior orçamento da Esplanada. Sabe que não conseguirá fazer uma revolução em dois anos e meio. Mas, nesta entrevista a VEJA em Brasília, define suas duas ambiciosas prioridades: garantir a elaboração de um bom currículo nacional e reformar o engessado ensino médio.

Antes de falarmos de educação, uma curiosidade: por que uma das primeiras audiências do senhor como novo ministro foi com o ator de filmes pornográficos Alexandre Frota? Se o recebo, há polêmica. Se não o recebo, também. Seria acusado de antidemocrático, de preconceituoso. Mas ter estado com ele não significa compartilhar das escolhas de vida do Frota, que não julgo.

Os jovens brasileiros estão atrás na corrida global pela excelência. O que o senhor pretende fazer para romper com a lógica do fracasso? O primeiro passo será mudar de uma vez por todas o modelo de ensino médio no Brasil. Ele é único no planeta, e não funciona. O atual sistema se apoia em uma ideia falaciosa, a de que ensinando uma única cartilha a todo mundo garante-se a igualdade de oportunidades. Pois é justo o contrário. Pessoas têm ambições, gostos e aptidões diferentes. Desconsiderar isso e querer que todos passem por um mesmo amontoado maçante de disciplinas é um erro que sepulta oportunidades no lugar de ampliá-las. Metade dos alunos deixa a sala de aula antes de concluir a escola. Que chances estamos dando a esses jovens? Zero.

Muito já se falou sobre mudar o ensino médio, sem resultado. Por que acreditar que desta vez vai acontecer? Estamos falando com secretários de todos os estados, em conversas já bastante amadurecidas, e tomando medidas concretas em direção à mudança. Adianto aqui que o ensino médio será por ora retirado da discussão sobre o currículo nacional, que focará o ciclo fundamental. Não faria sentido definir o que o estudante deve aprender em cada matéria do nível médio se o objetivo é justamente trocar o modelo existente.

Qual é o plano, afinal? A meta é tornar o ensino médio mais flexível, como em outros países. Ainda em discussão e sujeita à aprovação do Congresso, a ideia é exigir uma base única para todos os alunos até certo ponto. Depois, cada um percorreria a própria trilha: uns montando uma grade de matérias de acordo com seus interesses, dentro da escola tradicional; outros seguindo a rota do ensino técnico, ainda tão subaproveitada e desvalorizada no país. Se apenas 16% dos jovens frequentam hoje a universidade, certamente falta olhar para os outros 84% que ficam pelo caminho e lhes dar saídas. Eles são a prova de um modelo engessado que deu errado. O Brasil inventou uma jabuticaba.

Se o ensino médio mudar, o Enem também mudará para se ajustar à nova sala de aula? Sim, a prova terá de ser readequada ao novo modelo. Não dará mais para cobrar no exame tudo de todo mundo na mesma medida. A fórmula atual foi feita para o sistema único de ensino médio, que é exatamente o que queremos mudar. Uma das ideias é elaborar um exame de língua portuguesa, matemática e inglês aplicado a todos. Em outra parte, seriam testados conhecimentos de ciências humanas, exatas ou biomédicas, a depender do curso escolhido pelo aluno. A discussão está em andamento. O fato é que, de algum modo, o Enem precisará se adaptar à nova era.

Um de seus últimos atos foi trocar integrantes do Conselho Nacional de Educação (CNE), instituição que tem em mãos a missão crucial de chancelar o primeiro currículo brasileiro. Por que fez isso? O mais importante foi tirar o peso ideológico da configuração deixada pela gestão anterior. Havia uma unidade de pensamento afinada com o petismo e a lógica sindical. Agora, o perfil do conselho ficou mais técnico e representativo.

O senhor quer substituir a ideologia passada por qual ideologia? Por nenhuma outra ideologia. Pretendo mais equilíbrio, mais variedade. Havia gente muito engajada politicamente, e isso é ruim. Em educação, o conhecimento técnico é fundamental.

A discussão sobre o currículo nacional está atrasada em relação ao estabelecido no Plano Nacional de Educação (PNE). Quando sai alguma definição? Pode demorar ainda um pouco, até o fim do ano, mas é em prol da qualidade. As universidades vinham centralizando o debate. Decidimos então ampliar o rol convidando os melhores especialistas de cada área para opinar. Se temos no Brasil um núcleo de excelência como o Impa, referência na matemática mundial, ou a Academia Brasileira de Letras, por que não consultá-los?

De todos os currículos de disciplinas apresentados, o de história foi o mais controverso. Ele muda ou fica como está? A primeira versão tinha um viés ideológico absolutamente distorcido, além de deixar de fora capítulos como Grécia, Roma e Revolução Francesa. Expressam as convicções daqueles que a escreveram. A segunda versão avançou, mas ainda precisa ser aprimorada. Por isso vamos ouvir mais gente boa, para fazer uma peneira rigorosa.

Mas aqui também fica uma dúvida: é o caso então de trocar um viés ideológico por outro, trocar a visão de esquerda das coisas por um olhar de direita, de centro? Não. As crianças devem ser apresentadas a todo tipo de ideologia, de Karl Marx a Adam Smith. Não se pode ter uma leitura única na escola, um panfleto dogmático. Em vez do panfleto, de qualquer cor, devemos oferecer a leitura dos grandes pensadores no original. E cada um escolhe seu caminho. Nosso objetivo, até onde for possível ir, é não deixar que a escola se torne domínio de determinada doutrina, mas que seja aberta e plural nas ideias. Do ponto de vista técnico, a meta é chegar a um currículo irrepreensível. Podem me cobrar depois.

Em pouco mais de uma década, o orçamento do MEC triplicou e nunca foi tão alto: cravou 137 bilhões de reais em 2015. Afinal, falta dinheiro? Não vou afirmar aqui que mais verbas não poderiam ajudar a melhorar a educação. A experiência brasileira mostra, porém, que de nada adianta ter uma bolada na mão se ela não for muito bem aplicada. O que se viu no Brasil nos últimos anos foi um verdadeiro espetáculo de desperdício do dinheiro público.

O senhor poderia ser mais objetivo em sua crítica? Agora que estou dentro do MEC, posso falar sem medo de ser injusto: sobram no ministério programas onerosos, sem boa gestão nem cobrança de resultados. É dinheiro a fundo perdido. Olhe um exemplo: mais de 800 000 professores estaduais e municipais receberam bolsas com o objetivo de fazer com que as crianças avançassem na alfabetização. Valor total: 2,6 bilhões de reais. E sabe o que aconteceu? Nada. Quase metade dos estudantes ainda chega ao 3º ano do ensino fundamental fora do nível esperado de alfabetização. Uma das grandes bandeiras petistas na educação, o Pronatec também não foi efetivo em sua missão de colocar no mercado uma multidão de técnicos com aptidões demandadas pela economia, como fora prometido.

O que deu errado no caso do Pronatec? Faltou conectar os cursos às reais necessidades do mercado e, depois, acompanhar os resultados de investimento público tão vultoso. Qual foi o efeito do ensino técnico na vida do aluno? Afinal, ele arranjou emprego? E que emprego é esse? Não se sabe nada. O que se sabe, isso sim, é que a taxa de evasão do programa é altíssima: um de cada cinco estudantes sai.

O senhor pretende extingui-lo? Não, mas vou ajustá-lo de modo que dê mais retorno às pessoas e à economia. A contrapartida para ter dinheiro do Pronatec será ofertar um bom ensino.

Outro alto investimento federal de grandes ambições foi o Ciência sem Fronteiras, que dá bolsas a alunos de graduação e pós-graduação no exterior. Qual será seu destino? As bolsas de pós-graduação já existiam e continuarão a receber o aporte de dinheiro necessário. Quanto aos intercâmbios de graduação, faço duas promessas. A primeira é que vamos honrar a dívida gigantesca herdada da gestão anterior e pagar aos estudantes. A outra é que o programa será reavaliado radicalmente. Nenhum país investe tanto nesse tipo de ação. Para se ter uma medida, 3,7 bilhões de reais foram gastos para atender 35 000 alunos. Isso equivale ao orçamento total da merenda escolar, que alcança 40 milhões de estudantes. E detalhe: o Ciência sem Fronteiras chega em grande parte à classe média. Defino-o como um Robin Hood às avessas – tira dos mais pobres para dar aos mais ricos. Aliás, como regra geral na educação, apesar de todo o discurso, o PT acabou por privilegiar quem tem mais dinheiro.

Parece um típico discurso de oposição. Os números são autoexplicativos. Nos últimos cinco anos, o dinheiro federal para o ensino superior cresceu num ritmo que é o triplo do das verbas para o ensino básico, justamente onde tropeça a base da pirâmide. Entre os jovens, 1,7 milhão compõe a geração nem-nem – nem estuda nem trabalha. Eles estão completamente fora do jogo. São o retrato de um péssimo sistema educacional.

Como é fazer parte de um governo ainda interino e com pouco tempo para tocar projetos de longo prazo? Não pretendo realizar nenhuma grande revolução. Se conseguir deixar um bom currículo nacional e um ensino médio mais eficiente, já terá sido uma vitória.

Ver colegas de Esplanada enredados em corrupção o desestimula? Todo mundo deve pagar o que deve. Durmo e acordo pensando em meu próprio ministério.

Conseguiu dormir quando pairou sobre o senhor a suspeita de ter recebido 100 000 reais via caixa dois em sua campanha para deputado federal em 2014? Doeu na alma, mas a questão já foi esclarecida e a acusação, retirada do inquérito. Aquela era uma doação legal para o meu partido, o DEM.

O senhor teme a Lava-Jato? Não. Sei que sempre fiz bem meu dever de casa.


 FIM

"Terrorismo à brasileira" (VEJA Nº 2488 - 27 JULHO 2016)


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