quarta-feira, 20 de abril de 2016

Eugênio Gudin: A experiência cubana, um drama de imaturidade




Já é bem conhecida a tática dos dirigentes comunistas de recorrer à confissão pública de seus erros, para retemperar sua popularidade. Até o egípcio Gamal Nasser já aprendeu a lançar mão desse artifício. 

Agora, diante da triste situação em que se debate a economia cubana, foi a vez de Fidel Castro, de proclamar sua mea culpa.

Não sei por que os discursos dos chefes comunistas são tão longos: duas, às vezes três horas. Deve ser pela dificuldade de explicar por que é que a vida está tão dura...


“Se com essas máquinas, com esses equipamentos, com esses recursos não atingimos o ótimo, não é porque um capitalista nos impede; não é porque um proprietário nos impede... É porque não sabemos...” (1)
“Nos encontramos frente à tremenda pressão da necessidade de residências e de reformar as existentes em toda a parte... os companheiros em Santiago de Cuba não possuem ao menos um caminhão e uma betoneira para enfrentar a situação.”
“Listas de prioridade para entrega de casa? Para que se não existem casas?
“Trabalhadores com roupa rasgada e sapatos estragados. Pedindo tornos, máquinas, ferramentas.
... Inclusive esquecendo-se da má situação do abastecimento.”

Tudo isso, malgrado os 360 milhões de dólares de ajuda soviética por ano.

Mais relevante porém é o trecho que se refere às causas:

“Porque a tragédia, uma das tragédias de nosso país”, diz Fidel, “é o elemento humano, homens capazes de desempenhar, com um nível adequado de preparação e de inteligência (grifos nossos) as complexas tarefas da produção.”

É realmente trágico que se tenha imposto a um pobre povo como o cubano um rosário de sofrimentos e de privações, para no fim descobrir que o que falta é o elemento humano capaz. Qualquer estadista de meio quilate ou economista informado poderia ter disso advertido o povo cubano, antes de fazer a revolução, evitando-lhe uma tragédia tão cruel quanto inútil.

Muito mais difícil do que o caso de Cuba foi e é o de Israel, chamado a construir uma civilização no quase-deserto. Venceu e venceu galhardamente porque dispunha do elemento humano capaz, verdade que só agora e com o preço de um drama Fidel Castro veio a descobrir.

A experiência cubana deveria servir de lição para os homens e partidos que na América Latina acreditam que a prosperidade e a felicidade de um povo dependem, não da melhoria do elemento humano e da colaboração da técnica estrangeira, e sim de uma revolução marxista, como se esta tivesse o dom milagroso de transformar um país política, cultura e economicamente atrasado em uma nação rica e próspera...

No caso cubano a situação do elemento humano ainda se agravou porque o drama da miséria e do paredón fez partir cerca de 600 mil pessoas (segundo as mais fidedignas estimativas), com uma larga percentagem de gente mais capaz do país.

Che Guevara era um idealista tão sonhador como imaturo. Sua imaturidade custou-lhe a vida. Mas muito mais do que isso tem custado a vida às centenas de moços que aliciou, como de outras centenas de jovens terroristas como Lungaretti e Massafume, não raro com menos de 20 anos de idade...

Não tem a América Latina o monopólio desses semidesequilibrados e semi-ignorantes, com capacidade de aliciamento. Mas a origem ibérica é sem dúvida um caldo de cultura favorável ao desabrocho dessa espécie.

Daí a conveniência de divulgar o texto do discurso de Fidel e a gênese da tragédia cubana, para tentar evitar que se repita tão inútil e tão estupidamente o mesmo erro.

(10.8.70)

FONTE: Eugênio Gudin in O Pensamento de Eugênio Gudin, Rio de Janeiro, FGV: 1978, páginas 118-119. 



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(1) Si con esas máquinas, si con esos equipos, si con esos recursos no hacemos lo óptimo, no es porque nos lo impida un capitalista... es porque no sabemos...

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