domingo, 20 de agosto de 2017

Os bons ladrões (Paulo Mendes Campos)


Paulo Mendes Campos

Morando sozinha e indo à cidade em um dia de festa, uma senhora de Ipanema teve a sua bolsa roubada, com todas as suas joias dentro. No dia seguinte, desesperada de qualquer eficiência policial, recebeu um telefonema:

 – É a senhora de quem roubaram a bolsa ontem?
– Sim.
– Aqui é o ladrão, minha senhora.
– Mas como o... o senhor descobriu o meu número?
– Pela carteira de identidade e pela lista.
– Ah, é verdade. E quanto quer para devolver os meus objetos?
– Não quero nada, madame. O caso é que sou um homem casado.
– Pelo fato de ser casado, não precisa andar roubando. Onde estão as minhas joias, seu sujeito ordinário?
– Vamos com calma, madame. Quero dizer que só ontem, por um descuido meu, minha mulher descobriu quem eu sou realmente. A senhora não imagina o meu drama.
– Escute uma coisa, eu não estou para ouvir graçolas de um ladrão muito descarado...
– Não é graçola, madame. O caso é que adoro minha mulher.
– E por que o senhor está me contando isso? O que me interessa são as joias e a carteira de identidade (dá um trabalho danado tirar outra), e não tenho nada com a sua vida particular. Quero o que é meu.
– Claro, madame, claro. Estou lhe telefonando por isso. Imagine a senhora que minha mulher falou que me deixa imediatamente se eu não me regenerar...
– Coitada! Ir numa conversa dessas.
– Pois eu prometi nunca mais roubar em minha vida.
– E ela bancou a pateta de acreditar?
– Acho que não. Mas, o que eu prometo, eu cumpro; sou um homem de palavra.
– Um ladrão de palavra, essa é fina. As minhas joias naturalmente o senhor já vendeu.
– Absolutamente, estão em meu poder.
– E quanto quer por elas? Diga logo.
– Não vendo, madame, quero devolvê-las. Infelizmente, minha mulher disse que só acreditaria em minha regeneração se eu lhe devolvesse as joias. Depois ela vai lhe telefonar para checar.
– Pois fique sabendo que eu estou gostando muito de sua senhora. Pena uma pessoa de tanto caráter estar casada com um... homem fora da lei.
– É também o que eu acho. Mas gosto tanto dela que estou disposto a qualquer sacrifício.
– Meus parabéns. O senhor vai trazer-me as joias aqui?
– Isso nunca. A senhora podia fazer uma suja.
– Uma o quê?
– A senhora, com o perdão da palavra, podia chamar a polícia.
– Prometo que não chamo, não por sua causa, por causa de sua senhora.
– Vai me desculpar madame, mas nessa eu não vou.
– Também sou uma mulher de palavra.
– O caso madame, é que nós, os desonestos, não acreditamos na palavra dos honestos.
– Tá. Mas como o senhor pretende fazer então?
– Estou bolando um jeito de lhe mandar as joias sem perigo para mim e sem que outro ladrão possa roubá-las. A senhora não tem uma ideia?
– O senhor entende mais disso do que eu.
– É verdade. Tenho um plano: eu lhe mando umas flores com as joias dentro dum pequeno embrulho.
– Não seria melhor eu encontrá-lo numa esquina?
– Negativo! Tenho meu pudor, madame.
– Mas não há perigo de mandar algo de tanto valor para uma casa de flores?
– Não. Vou seguir o entregador a uma certa distância.
– Então, vou ficar esperando. Não se esqueça da carteira.
– Dentro de vinte minutos está tudo aí.
– Sendo assim, muito agradecida e lembranças para sua senhora.

Dentro do prazo marcado, um menino confirmava, que em certas ocasiões, até os ladrões mandam flores e joias.


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