segunda-feira, 2 de maio de 2016

O continuísmo venceu (06/02/1985, Páginas Amarelas de VEJA)


Maluf e dona Silvia em campanha presidencial em 1984
Créditos da imagem: 
http://pordentrodamidia.com.br/wp-content/uploads/2014/01/unnamed.png



O candidato derrota à Presidência faz um balanço de sua campanha, dá votos de confiança a Tancredo e promete uma oposição vigilante

Entrevista de Paulo Salim Maluf a Paulo Moreira Leite (Edição 857)

Desde que perdeu para Tancredo Neves a disputa no Colégio Eleitoral, o deputado Paulo Salim Maluf, 53 anos, tem experimentado notáveis mudanças em sua rotina pessoal. Em Paris, para onde embarcou no dia 19 de janeiro com a mulher, Sylvia, e os filhos Flávio, 22 anos, e Lina, 17, Maluf retomou o hábito de se alimentar três vezes ao dia, em vez da única refeição diária que se acostumara a fazer durante a campanha. “Engordei 5 quilos desde que cheguei”, conta o deputado. “Além de comer mais, ainda tomo um pouco de vinho. Na época da campanha, não bebia nada.”
O candidato derrotado também reduziu seu ritmo de trabalho: agora, vai dormir mais cedo e acorda mais tarde. “Estou fazendo turismo”, avisa Maluf. “Nos últimos dois anos, tive muito pouco tempo para dedicar aos meus filhos.” Nesta viagem, Maluf também abandonou um velho hábito. “Imagine, cheguei a Paris e nem me apresentei ao embaixador do Brasil”, revela. Livre dos quase 100 telefonemas diários que julgava necessário fazer ao tempo da sucessão, Maluf, como qualquer turista, visitou museus, castelos e galerias em Paris – mas não deixou de acompanhar com atenção a política brasileira e as articulações do presidente eleito, Tancredo Neves, para a formação do seu ministério.
Seus assessores lhe enviam um telex diário com o resumo das notícias divulgadas nos principais jornais do país. Às vezes, como no dia em que os jornais publicaram a íntegra da entrevista concedida pelo presidente João Figueiredo à TV Manchete, há duas semanas, o telex chega a alcançar 6 metros de comprimento. Na semana passada, antes de embarcar para uma temporada de dez dias na estação de esqui de Gstaad, na Suíça, Maluf, que pretende retornar ao Brasil no final de fevereiro, recebeu VEJA em seu apartamento no Hotel Plaza Athénée de Paris para a seguinte entrevista:




Tentaram desestabilizar
a sucessão

VejaO senhor se considera traído pelo presidente João Figueiredo na campanha para o Colégio Eleitoral?

Maluf – O presidente Figueiredo devolveu a coordenação da sucessão ao partido, em dezembro de 1983, e assumiu o compromisso de não interferir na convenção do PDS. Isso foi cumprido. É evidente, também, que o presidente tentou cumprir a palavra empenhada depois da convenção no sentido de o candidato vencedor receber o apoio do governo. Mas eu estaria faltando com a franqueza se dissesse que o governo obedeceu à orientação do presidente. O governo, como um todo – ou seja, a pessoa jurídica do governo –, não seguiu essa orientação.

VejaO senhor poderia dar exemplos?

Maluf – Cada governante tem o seu estilo. Eu creio que nos governos Castello Branco, Costa e Silva Emílio Medici ou Ernesto Geisel dificilmente algum ministro deixaria de cumprir uma instrução do presidente da República. Neste final do governo Figueiredo – e ninguém precisa saber disso através da minha boca: a própria revista VEJA de três semanas atrás[1] já foi muito clara – sabe-se muito bem quais foram os ministros que cumpriram a ética partidária e quais aqueles que não cumpriram. Houve até o caso de um ministro do presidente Figueiredo que se encontrou secretamente com o candidato do PMDB – antes da própria convenção do PDS![2]

VejaO senhor não quer dar nomes?

Maluf – Prefiro não fazê-lo. Aqueles que eram do PDS e, através de acordos secretos, de encontros não revelados, tentaram compor-se com o outro candidato, na verdade quiseram comprar um passaporte para a impunidade. Não tenho dúvidas em afirmar que, conhecendo-se as posições-chave no próximo governo, ficaremos sabendo quem foi que negociou ou não por debaixo do pano. Ficaremos sabendo, também, que o próximo governo pouco ou nada representará em termos de mudança. O próximo governo será sinônimo de continuísmo. O continuísmo venceu.

VejaAlguém propôs ao senhor desistir de ir ao Colégio Eleitoral?

Maluf – Depois da convenção do PDS, não foram poucos os que participaram de conchavos e conspirações. Inúmeras pessoas estavam tentando desestabilizar a sucessão. Houve até propostas do ministro Leitão de Abreu ao presidente da Câmara dos Deputados, Flávio Marcílio, no sentido de tentar a retirada da chapa do PDS. Só posso atribuir a uma proposta como esta o sentido de desestabilizar toda a eleição. Um prédio sustentado por dois pilares – no caso, um edifício político apoiado nas candidaturas Paulo Maluf e Tancredo Neves – perderia a estabilidade se uma das candidaturas se retirasse.
Meu erro foi confiar
nos homens

VejaEssa proposta chegou ao senhor?

Maluf – É evidente que não, porque sabiam que seria repelida da forma mais enérgica possível. A mim, ninguém teria coragem de fazer essa proposta, porque ela é imoral. O ministro Delfim Netto conversou sobre esse assunto com deputados e senadores. Essa proposta é a dos eternos golpistas, daqueles que serviram sob o regime autoritário e que sabiam que, com a desestabilização da sucessão, iria buscar-se como candidato do PDS alguém cuja patente tornaria o voto infiel impossível.

VejaO senhor está dizendo que, se tivesse desistido de disputar no Colégio Eleitoral, um general de quatro estrelas ocuparia o seu lugar?

Maluf É possível chegar a isso por uma suposição. A legislação obriga à desincompatibilização num prazo mínimo de cinco meses para quem ocupa cargos no Executivo, como ministros de Estado, governadores ou prefeitos. Em segundo lugar, uma legislação específica, feita no final do governo Medici para a sucessão do presidente Geisel, retirou a necessidade de filiação partidária aos militares. Ora, se havia uma proposta de substituição de candidaturas, uma coisa é certa: o substituto não poderia ter sido nenhum dos ministros de Estado, porque todos estavam constitucionalmente incompatibilizados. Há que se perguntar, então: dentro do universo da população brasileira, quais eram aquelas pessoas que, ocupando cargos públicos, não tinham necessidade de se desincompatibilizar nem de se filiar partidariamente para serem candidatas? Chega-se a conclusão por simples exclusão.

VejaO senhor acredita que cometeu algum erro durante a campanha?

Maluf – Pode ser que durante a campanha eu pudesse ter obtido um voto a mais, ou cinco votos a mais, de acordo com uma ou outra composição política que fizesse num determinado Estado. Mas, se houve erro, foi o de confiarmos nos homens, nas palavras dos homens. Tivemos sempre boa fé. Antes da convenção do PDS, havia dezenas de declarações dos dois candidatos de que o perdedor apoiaria o vencedor. Hoje se sabe que isso não aconteceu.[3]

VejaO erro teria sido certa ingenuidade?

Maluf – Boa fé é uma virtude. Quando alguém me dá a palavra, eu confio. Não tinha nenhuma razão para não confiar na palavra pública do candidato Mário Andreazza, por exemplo.

VejaQuando o senhor chegou à conclusão de que não iria ganhar?

Maluf – Creio que as chances diminuíram, fundamentalmente, na última semana de outubro, quando os governadores do PDS, em conversa com o presidente Figueiredo, decidiram apoiar o candidato do PMDB.

Veja – Quem lhe deu a notícia de que o senhor iria perder?

Maluf – Eu mesmo descobri. Durante a campanha eu dava 100 telefonemas por dia, no mínimo. Sabia tudo o que poderia acontecer. Então, fui o primeiro a saber.

VejaA votação obtida no Colégio, mesmo assim, chegou a surpreendê-lo?

Maluf – A mim, não. Mas havia pessoas que diziam que nós não teríamos mais do que cinquenta votos. Creio que a esses nós demos uma surpresa, para eles, desagradável, porque, depois de proclamado o voto número 344 para Tancredo Neves – ou seja, depois que foi proclamada a vitória do outro candidato por metade dos votos mais um –, ainda assim nós tivemos oitenta parlamentares que votaram publicamente no nome de Paulo Maluf. Pelo menos foi uma demonstração de que no Colégio havia gente de caráter.

VejaEntre os que aderiram a Tancredo Neves à última hora, houve alguém que o tenha particularmente surpreendido?

Maluf – Creio que, pela sua importância, as páginas amarelas de VEJA não devem registrar o nome dessas pessoas.

VejaNesta corrida, quais os amigos que lhe foram leais?

Maluf – Todos os 180 que votaram em mim foram leais.

VejaPor que o senhor chegou ao Colégio só com 180 votos?

Maluf – Uns quarenta votos eu liberei. Fiz isso porque aritmeticamente a minha campanha estava derrotada. E havia uma marcação muito injusta em cima daqueles que, filiados a outros partidos, iriam votar em Paulo Maluf. Alguns poucos, com muita dignidade, um caráter raramente visto, se negaram a aceitar a liberação, mesmo sendo do PDT, do PMDB e do PTB. Tomei a decisão de liberar esses votos entre sessenta e trinta dias antes do Colégio Eleitoral.

Figueiredo não faz
meu gênero

VejaO senhor saiu ferido com certas críticas mais pesadas que lhe foram feitas durante a campanha eleitoral?

Maluf – Não. Houve muitas injustiças contra a minha pessoa, mas reconheço que isso faz parte da disputa. Recentemente li uma biografia de Abraham Lincoln, escrita por Dale Carnegie[4]. Lincoln é um dos cinco maiores estadistas americanos e, portanto, mundiais. E eu tinha a imagem de que ele fora um homem venerado em seu tempo. Lendo esse livro, porém, vi que Lincoln foi provavelmente o homem mais injustiçado durante a sua vida, nos Estados Unidos. Ele só foi reconhecido quando cessaram as paixões políticas, quando ele já não representava ameaça aos planos políticos de ninguém. Só então teve um julgamento sereno. Isso porque Lincoln pensava vinte ou trinta anos à frente de seu tempo.  De minha parte, quero dizer que, muitas vezes, o julgamento negativo a meu respeito ocorreu quando tentei pensar muitos anos à frente em projetos administrativos.

VejaNuma recente entrevista à TV Manchete, o presidente Figueiredo afirmou: “O deputado Paulo Maluf não faz o meu gênero”. O que o senhor pensa disso?

Maluf – Confesso que o presidente Figueiredo também não faz o meu gênero. Não vou deixar de respeitar alguém que foi presidente da República. Mas ele não faz o meu gênero porque, quando penso no país, penso no país da eficiência, da produtividade, num país de iguais e de trabalho. Isso não aconteceu nos últimos cinco ou seis anos. Ou seja, o governo não atingiu seus objetivos. Mas repito: nem por isso vou deixar de respeitar a pessoa jurídica do presidente da República.

VejaO presidente afirmou que 70% do povão apóia Tancredo Neves. O senhor concorda?

Maluf – Não sei que dados ele tem para dizer que são 70%. Pode ser que sejam 40%, ou até 80%. É evidente que todo presidente da República, quando assume, entra sob uma expectativa favorável. Tivesse eu vencido, tenho certeza de que também contaria com esse voto de confiança. Esse é um voto que todos devemos dar ao presidente Tancredo Neves. Inclusive eu mesmo, Paulo Maluf, dou esse voto a ele. Isso é normal. Agora, entrar com 70% da opinião pública é menos importante do que sair com 70% da opinião pública.


Eu garanti a vitória
dos civis

VejaQual o balanço que o senhor faz dessa campanha?

Maluf – Depois de 1978, quando, sob o AI-5, enfrentei o Palácio do Planalto para disputar o governo do Estado de São Paulo, ninguém mais poderia controlar as convenções estaduais. E o resultado disso é que as eleições seguintes para governador, em 1982, foram diretas. Ninguém mais desejou a manutenção da eleição indireta, pois não era mais possível segurar as convenções. Da mesma maneira, a minha obstinação em manter minha candidatura, em desejar a manutenção do processo democrático, fez com que essa eleição de 1985 fosse a última indireta. A próxima será direta – mas será assim porque o Paulo Maluf não permitiu que se fizesse nenhuma modificação das regras do jogo, a não ser através de reformas constitucionais, que exigiriam dois terços do Congresso.

VejaO senhor não acha que foi a campanha pelas diretas já que contribuiu, e muito, para que essa eleição tenha sido a última indireta?

Maluf – A campanha pelas diretas já contribuiu muito de fato. O movimento popular tem muita força. Mas, veja, nós já tivemos eleições diretas em outras ocasiões, como em 1960, por exemplo. E o que aconteceu depois, sob o aspecto administrativo, serviu de pretexto para que não mais se realizassem eleições diretas. Agora, em 1985, creio que o fato de termos tido uma eleição indireta disputada representa a maior garantia de que a próxima eleição será direta. Se tivéssemos recorrido a uma solução extralegal, se o candidato tivesse sido um general de quatro estrelas, pergunto: qual a garantia de que as próximas eleições seriam diretas? Quem garantiu a manutenção do processo civil foi o candidato do PDS, não o do PMDB.

VejaO que o senhor considera mais importante: a convocação da Assembléia Constituinte ou as diretas?

Maluf – Parece-me que estas coisas estão caindo no esquecimento por parte do PMDB. Mesmo as eleições diretas para prefeito das capitais, que tinham sido uma promessa das eleições de 1982, agora não interessam nem aos governadores do PMDB, porque muitos sabem que sua atuação está aquém daquilo que o povo esperava. A Constituinte, como Tancredo quer, nas eleições de 15 de novembro de 1986, equivale a uma Constituinte instalada em março de 1987. Se for assim, tem de se dar um prazo de no mínimo um ano para se ter uma nova eleição, ou seja, só teremos uma nova Constituição em 1988. Ora, um governo que pregou mudanças em 1984, e agora só quer mudar em 1988, parece que não quer mudar nada.

VejaE as diretas?

Maluf - Existem duas soluções. Ou se faz a direta em 1986, ressalvando-se o direito de o presidente disputar a reeleição, ou se faz em 1988, com mandato de quatro anos. Esta segunda hipótese fazia parte da mensagem que o presidente Figueiredo enviou ao Congresso mas que a oposição não topou porque queria diretas já. Ora, se naquela época a oposição não aceitou, me parece que agora, por uma questão de coerência, deveria desejar diretas em 1986 com a possibilidade de reeleição do presidente.

VejaO que o senhor espera do governo Tancredo Neves?

Maluf – Eu me permito conceder-lhe o que se chama aqui, na França, “o período de graça”. E dou também um período de carência, de noventa a 120 dias. Se o governo, nesses prazos, através das medidas que tomar, demonstrar que tem orientação e que vai cumprir suas metas, nós teremos toda a independência para aplaudir. Mas depois disso – e sem nenhuma histeria, nenhuma emoção – também teremos toda a coragem de criticar, e mostrar por que criticamos, aquilo que o governo prometeu e não cumpriu.

VejaComo o senhor analisa os nomes que estão sendo ventilados como prováveis ministros de Tancredo Neves?

Maluf – Não posso analisar nome por nome, pois tudo o que sei é o que está nos jornais. Mas posso dizer que, por exemplo, de uma lista de nove nomes que li, pelo menos seis foram da Arena ou do PDS... O nosso partido sempre foi considerado do governo mas, na realidade, nunca esteve no governo. A partir de agora, sem nenhuma ironia, nós vamos poder dizer que o PDS está no governo. A partir de 15 de março de 1985, com Tancredo.

VejaNão é um exagero? Fala-se, por exemplo, no senador Fernando Henrique Cardoso, do PMDB de São Paulo, que foi cassado, esteve no exílio...

Maluf – Mas é um só. O fato de se colocar, numa lista de dez, um nome que nunca esteve no governo não tem importância. E os outros nove? É esse o ministério da mudança?

VejaHá outros nomes do PMDB que também estarão no futuro ministério...

Maluf – Mas serão poucos. Um pouco de PMDB sempre será preciso... É este o aspecto importante[5]. A imagem que se passou para a opinião pública foi a de que tudo iria mudar. São esses os nomes da mudança?


Posso fazer muito
pelo país

VejaO senhor já decidiu candidatar-se, novamente, à Presidência da República?

Maluf – Minha idéia é continuar exercendo o cargo de deputado federal, com pregações diárias em torno daquilo que representa o atendimento das aspirações do povo. Seria muita falta de franqueza de minha parte dizer, agora, que não desejei ser presidente. Pelo programa que formamos e pela experiência que adquiri, acho que poderei fazer muito ainda pelo país. Mas acho que é um pouco cedo para fazer uma estimativa de uma nova candidatura.  Até porque não sabemos como vai ficar o quadro partidário. Mas uma coisa é certa: ficarei na vida pública, e acho que isso diz tudo.




[1] Edição 854, de 16/01/1985 – ESPECIAL: Os segredos da vitória da oposição.
[2] Leia DIMENSTEIN, Gilberto et al. O complô que elegeu Tancredo Neves. 7.ed. Rio de Janeiro:JB, 1985. 247p. neste link: http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2006/12/129_ocomplo.doc, Acesso em 21/10/2014 16:16, bem como Muda Brasil: O Marketing Político que levou Tancredo Neves à Presidência da República, por Hebe Maria Gonçalves de Oliveira in http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2003/www/pdf/2003_NP03_oliveira_hebe.pdf. Acesso em 21/10/214 16:19.  
[3] Ele se refere a Mário Andreazza, que perdeu a convenção contra Paulo Maluf, conseguindo 350 votos e Paulo Maluf, 493. Veja aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Democr%C3%A1tico_Social Acesso em 21/10/2014 17:12.
[4] Encontre aqui, em inglês: https://www.godfire.net/Lincoln_Unknown_Dale_Carnegie.pdf Acesso em 22/10/2014 12:28.
[5] Veja os Ministros do Governo Sarney (que substituiu Tancredo Neves, por causa da morte deste): http://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Ministros_do_Governo_Sarney Acesso em 22/10/2014 15:46.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...