terça-feira, 10 de outubro de 2017

A trégua - Mario Benedetti


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Segunda, 11 de fevereiro


Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim do ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe. É bom como descanso ativo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra minha futura e garantida artrite. Mas temo não conseguir aguentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever? Talvez não o fizesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar das minhas cartas. E depois? Imagino uma notinha bibliográfica sobre "as notáveis qualidades deste autor estreante que beira os 50", e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me sinta, até hoje, ingênuo e imaturo (isto é, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito de exibir essa ingenuidade e essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, insistia em mostrá-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia ficado preso aos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual depois se matou numa de nossas tantas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira correta, inteiramente de acordo com seus 53; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada, mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que não chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.

(Mario Benedetti, A trégua. Tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. Rio de Janeiro, Alfaguar/Objetiva: 2007.)


(BENEDETTI MARIO. La Tregua. Buenos Aires, Sudamericana: s/d)




A obra em Espanhol: AQUIAQUIAQUIAQUI

 A obra em Português: AQUI, AQUI, AQUI, AQUIAQUI



3 comentários:

Violeta disse...

mas porque tem a obra em espanhol aí? há que ter orgulho na nossa língua!
olhe aqui em portugues: http://portugues.free-ebooks.net/ebook/A-Tregua

abracos!

Marcelo disse...

Violeta, a obra foi escrita em espanhol. Por isso, acredito que quem quiser ler na língua original, poderá lê-la. Olha, que eu digitei os 4 primeiros dias. Foi muito cansativo e tenho pouco tempo. Mas fiquei muito feliz que você descobriu como encontrar a obra em português. Muito obrigado e um beijinho.

Marcelo disse...

A propósito, tenho orgulho da Língua Portuguesa, ou melhor que orgulho, sou seu servo, afinal sou professor de Língua Portuguesa.

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