terça-feira, 24 de maio de 2016

Corre, Luiz, corre

Fuga de escravos, óleo sobre tela por François Auguste Biard (1859). 

Há quase 160 anos (26/09/1853, segunda-feira) - já faz um bom tempo, mas parece que foi ontem, fugiu do Engenho Cutunguba (PE) o escravo Luiz, de aproximados 35 anos. Veja a nota no jornal da época:

"Escravos Fugidos - Fugiu na noite do dia 26 de setembro, um negro, crioulo, de nome Luiz, que representa ter 35 anos de idade, pertencente ao Sr. Joaquim da Silva Pessoa, senhor do engenho Cutunguba, por quem tinha sido remetido para ser vendido; tem dito negro uma bebida em um dos olhos, barba cerrada, e em a face direita tem uma cicatriz; é provável que se ache para os lugares de Santo Antão: roga-se as autoridades policiais, e capitães de campo a captura, podendo ser conduzido ao seu senhor no engenho Cutunguba, comarca de Nazaré, ou no Recife, armazém de açúcar de viúva Pereira da Cunha, que generosamente se gratificará."
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Luiz, sabe Deus porque, resolveu "vazar", aproveitando-se do cochilo do seu senhor, quando este atentava vendê-lo. Talvez tenha fugido porque pensava sobre o seu futuro. Com 35 anos, vendido? Como o trataria o novo dono? Não é mais nenhum garotão! 35 anos e desempregado. Novo dono, novo chefe, novos encargos... Isto te parece familiar?
Não dá para, de repente, te vender assim: ele não seria indenizado, não sabia a reputação do novo dono. E se fosse um homem mau, violento? E se Luiz adoecesse? O dono atual, parece que possuía alguma misericórdia. Talvez o vendesse por apertos financeiros.
Nem lá nem cá, não é Luiz? Foge! Se é para ficar nessa vida desgraçada, melhor fugir, correr... esperar o que Deus tem reservado para ti... não como passarinho, porque tu não nasceste para ser passarinho, mas és homem, Luiz. Criado à imagem e semelhança daquele que do céu traz tudo sob seu controle, sob sua majestade. Ele te recompensará. Foge! Tu não és coisa, tu és gente, Luiz. Corre, Luiz. Há 135 anos, muitos Luiz estão escravizados. Não só negros, mas de várias cores e origens... Às vezes, alguns resolvem correr, fugir... Desistir? Não, de jeito nenhum. Ele não desistiu, ele acordou. Não quer mais ser escravo. Viva a liberdade!

Fonte: http://www.pernambuco.com e Ponteiro

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